2025 · Arquitetura
Economia Circular para Reabilitação de Apartamento em Algés
Este apartamento com aproximadamente 66 m², localizado em Algés, propõe uma reflexão sobre sustentabilidade na reabilitação urbana contemporânea. Num setor onde a demolição é a norma, este projeto adotou a economia circular como ferramenta estética e ética, transformando o que…

Este apartamento com aproximadamente 66 m², localizado em Algés, propõe uma reflexão sobre sustentabilidade na reabilitação urbana contemporânea. Num setor onde a demolição é a norma, este projeto adotou a economia circular como ferramenta estética e ética, transformando o que seriam considerados resíduos de demolição em elementos de design que ganharam novo valor. A premissa central não foi a substituição, mas a metamorfose do existente através da economia circular com base nos materiais de que se dispunha no local.
O apartamento da década de 60 sofreu uma renovação profunda nos anos 90 que o descaracterizou com materiais esteticamente pesados e pouco coerentes com a arquitetura moderna da época. O desafio foi dar nova vida estética a estes materiais que eram vistos como desinteressantes. O projeto tenta reverter esse ruído visual, recuperando a dignidade dos anos 70 através de uma lente contemporânea sensível.
Iniciou-se a obra com uma desconstrução cirúrgica e cada elemento removido foi avaliado como recurso. Reutilizaram-se as portas dos armários existentes que foram lixadas e tratadas com óleo, os puxadores das portas foram re-utilizados nos armários, mesas e cadeiras de madeira foram transformadas em pés para os armários. Os azulejos dos anos 90 foram mantidos, mas sujeitos a um processo de lixagem manual que revelou camadas subjacentes, conferindo uma patine profunda e tátil às paredes. A bancada foi executada em betão tipo terrazzo artesanal com inertes provenientes das demolições da obra visíveis na superfície.
No geral, o layout foi mantido mas otimizado para potenciar a luz natural e a ventilação cruzada. O projeto definiu espaços funcionais e práticos mas com identidade e alma ao manter o existente e submetê-lo a processos criativos de transformação. Algumas foram decisões arriscadas com o mérito e a coragem da proprietários e sem se conseguir prever o resultado desde o início, mas sempre com o compromisso de valorizar o existente de forma artística e criativa a nortear decisões.
O resultado não se deve apenas ao projeto que determinou as intenções e funcionalidade, mas também à sensibilidade necessária em obra. O investimento foi direcionado para mão de obra especializada e trabalho artesão. Em vez de um catálogo de produtos industriais, existe agora o detalhe do encaixe, a textura da matéria recuperada e o tempo dedicado a dar nova vida ao que já lá estava.
Responsável em obra: Ricardo Pires
